Todo mês, até o final da primeira quinzena, pretendo preparar uma coletânea com algumas das músicas que vêm me perseguindo nos últimos dias. É uma maneira não só de tratar de faixas que não necessariamente estimulam um texto longo, mas também de sugerir algumas canções que fazem parte dos meus dias. A primeira ZipTape foi ao ar em Junho, e agora é vez do Volume 2. Espero que gostem.
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Arthur Russell
1. “Polish Girls” – Califone All My Friends Are Funeral Singers [EUA; Dead Oceans; 2009]
Seja na letra ou na melodia, o Califone encara de frente o desafio de dar ordem ao caos. “Polish Girls” tem um punhado de imagens impressionantes: “The words avoid my tongue”; “Cut lips on frozen words / Cracked teeth on hard syllables”; “Calm and lost the ripeness of the hour” – imagens que, mesmo não formando exatamente uma narrativa, usam algumas temáticas primordiais (comunicação, tempo, morte) para alinhavar o mistério. Essa mesma unidade norteia a progressiva entrada dos ruídos, primeiro microfonias que flutuam sobre a forte marcação melódica, mas que são realmente orquestradas no final da canção (por volta de 2:15), como um acorde de leves dissonâncias. Em “Polish Girls” – a melhor canção do ótimo All My Friends Are Funeral Singers - essa harmonia entre sensibilidade pop e uma inquietação quase noise se dá de forma admirável, onde até as dissonâncias são plenamente assoviáveis.
2. “Collector” – Here We Go Magic Pigeons [EUA; Secretly Canadian; 2010]
De certa forma, muito do que escrito acima sobre o Califone se aplica também a “Collector”, extraordinário single do segundo álbum do Here We Go Magic. Pois a canção parece combinar, com um acabamento magistral, duas das mais fortes tendências do indie atual em uma única canção: a dinâmica hipnótica dos sons em loop (Panda Bear, Juana Molina, Dan Deacon) escancarada na frase “You find the lord in repetition”, com o otimismo e urgência pop que rendeu alguns dos melhores discos dos últimos anos (Phoenix, TV on the Radio).
Alternando entre dois únicos acordes, “Collector” se mantém absolutamente surpreendente ao longo de seus cinco minutos de duração. E ainda se permite enveredar por dois minutos finais ininterruptos apenas de loops e sobreposição de camadas, sem nunca encobrir a canção com exercícios de pura curiosidade ou vaidade.
3. “Crash Years” – The New Pornographers Together [Canadá; Matador; 2010]
Together é de uma lisura rara e não sem contra-indicações: suas canções são tão fáceis e imediatas que algumas delas perdem completamente o brilho depois de poucas audições. “Crash Years”, porém, parece intricada e múltipla o suficiente para segurar o ouvinte por bem mais tempo. Há uma tensão muito bem arquitetada entre o ritmo sincopado pelo baixo e o violoncelo no começo e a maneira como a canção desliza sem qualquer obstáculos no refrão (algo sabiamente ressaltado pela bateria, com os toques de bumbo e caixa ao mesmo tempo, na cabeça do compasso). A facilidade da melodia vem sustentada por essa tensão estrutural, que se torna mais forte nas modificações de compasso e padrão melódico quando entram os assovios.
4. “Paralyzed” – Bob Mould Body of Song [EUA; Yep Roc; 2005]
Enquanto Bob Mould segue lançando discos bem menos memoráveis do que em épocas de Sugar e Hüsker Dü (não há nada em Life and Times ou District Lines que realmente esteja a par de Copper Blue ou Flip Your Wig), o desajambrado Body of Song, de 2005, segue como o álbum que mais atrai reaudições em toda sua carreira solo. Sua mistura estranha de rock alternativo, que Mould ajudou a inventar, com a dance music que ele adotara em Modulate nem sempre dá certo, mas garante uma inquietude que estava desaparecida desde Copper Blue – diriam outros que desde New Day Rising, mas não eu.
“Paralyzed” é, sem dúvidas, o ápice do álbum – e é um ápice alto o suficiente para figurar entre as melhores criações de toda a carreira de Mould. Enquanto o resto de Body of Song oscila entre rockões e umas poucas faixas de dance music, “Paralyzed” é uma canção de dance music (e estamos falando aqui de sua corrente mais melodiosa da década de 1980, de Pet Shop Boys e New Order) tocada por uma banda de rock. A levada das guitarras é equilibrada com a dobra de voz em vocoder, além de sintetizadores ritmados em flanger que fazem contraponto ao ritmo reto da bateria de Brendan Canty. Contornada pelos belos arranjos, ainda temos uma das melhores melodias já escritas por um dos mais talentosos melodistas das últimas 3 décadas.
5. “The Weakest Shade of Blue” – Pernice Brothers Yours Mine & Ours [EUA; Ashmont; 2003]
A única sequência possível para uma canção como “Paralyzed” é com outra melodia igualmente inspirada e apurada. Enquanto Goodbye, Killer não faz ondas por aqui, voltemos àquela que é provavelmente a melhor canção escrita por Joe Pernice: “The Weakest Shade of Blue” – sequência de partes fortíssimas, onde cada verso e ponte é marcante o suficiente para ser um refrão. Embora a afetação melodiosa muitas vezes situe os discos do Pernice Brothers mais próximos de um Left Banke do que dos Beach Boys (ou mais Teenage Fanclub do que Guided By Voices), não há excesso ou sobra alguma em “The Weakest Shade of Blue”. É uma canção pop simples e de absoluta perfeição, daquelas que se tornam mais e mais raras a cada dia.
6. “Fixed” – Stars The Five Ghosts [Canadá; Vagrant / Soft Revolution, 2010]
The Five Ghosts não tem a grandiloquência cafona de In Our Bedroom After the War; em consequência, é um disco bem menos particular e memorável. Mas há “Fixed”, canção de letra e melodia frouxas – daquelas que, embora possam ser despedaçadas com um sopro, sempre encontrarão lugar na rotina de quem cresceu ouvindo os discos do Velocity Girl. “Fixed” é tão descerebrada e comum quanto o disco de estréia do Pains of Being Pure at Heart, o que significa, no pior dos cenários, que é uma canção que dá vontade de ouvir diversas vezes em sequência.
7. “Take It In” – Hot Chip One Life Stand [Inglaterra; Astralwerks; 2010]
Uma cafonice leva à outra, e do Stars chegamos ao Hot Chip. One Life Stand não tem a pegada imediata dos melhores hits de Made In The Dark. Em compensação, a banda aprofunda a sofisticação de seu trabalho melódico, mesmo que por vezes esbarre (conscientemente) na franca pieguice.
“Take It In” é a última canção do disco e, para além da levada de pista, é a mais interessante justamente por suas constantes surpresas melódicas. A canção começa com uma sequência de notas em tom maior, mas logo aos 12 segundos um riff de teclado em tom menor desestabiliza a percepção de escala da canção. O mesmo movimento se repetirá no refrão: em vez de cair para as notas menores nas quintas do tom principal – como faziam no hit “Ready for the Floor” – o Hot Chip usa um mesmo tom em variações maiores e menores, às vezes ao mesmo tempo.
Essa recurso produz um efetivo curto-circuito na canção, desestabilizando por completo seu clima (a saída do refrão, em 1:39, para a parte instrumental em sequência é uma ruptura imprevisível e, por isso mesmo, violenta), vivendo na indecisão entre Pet Shop Boys e Depeche Mode. “Take It In” é um caso raro de composição que produz considerável estranhamento usando apenas artifícios melódicos, em uma perversão mais profunda, que parte não da superfície musical, mas da intimidade das notas.
8. “An Apology” – Future Islands In Evening Air [EUA; Thrill Jockey; 2010]
Descobri o Future Islands entre as recomendações do ótimo Papo gostoso sobre music, e In Evening Air impressiona de imediato pela maneira como elementos incompatíveis são combinados para algo harmonioso. “An Apology”, por exemplo, é como uma surpreendente versão ambient de uma canção do Hot Water Music. O vocal igualmente berrado e contido de Samuel T. Herring se equilibra em um fragilíssimo (e por isso certeiro) tripé: a batida programada, o baixo à Peter Hook de William Cashion e os sintetizadores de J. Gerrit Welmers. Com isso, é produzido um misto de sensações contrárias, onde a fragilidade está sempre ao lado da agressividade, a melodia é rasgada pela simplicidade dos arranjos, e uma instrumentação mínima é capaz de encher um cômodo inteiro.
9. “Empire State of Mind” – Jay-Z featuring Alicia Keys The Blueprint 3 [EUA; Atlantic / Roc Nation; 2009]
O que faz de “Empire State of Mind” um single tão poderoso é a maneira como diversos atributos complementares são temperados à perfeição: ritmo e melodia; versos falados e refrão cantado; agressividade e suavidade. É, óbvia e incontornavelmente, o produto ideal de um encontro entre Jay-Z e Alicia Keys. Mas o toque de gênio está justamente na métrica de Jay-Z, que compensa o peso de sua torrente de rimas atrasando levemente a entrega de cada uma delas, como se estivesse sempre um pouco atrasado em relação ao tempo da batida. Essa quase preguiça, que tira a urgência da canção e a puxa sensivelmente pra trás, é o que torna sua levada ainda mais sedutora.
10. “Lady Luck” – Richard Swift The Atlantic Ocean [EUA; Secretly Canadian; 2009]
The Atlantic Ocean não é um disco particularmente notável, e somente em “Lady Luck”, derradeira faixa do disco, Richard Swift parece encontrar uma abordagem especial para suas composições. A levada r&b segura uma única base ao longo de toda a canção, com uma produção suja que beira o lo-fi. Sobre ela, Richard Swift entoa um forte refrão em duas vozes que, abertas em falantes diferentes, sugerem duas melodias para uma mesma frase. A impressão é a de que não existe uma voz principal e uma variação que harmoniza, mas sim duas vozes principais em registros distintos da escala, que a abertura do pan ajuda a manter distintas, mesmo quando sobrepostas.
11. “Trouble Comes Running” – Spoon Transference [EUA; Merge; 2010]
“Trouble Comes Running” é um rockão típico do Spoon, misturando guitarras à Pete Townsend com a psicodelia surf de um Love, e um refrão sing along que faz lembrar os melhores momentos do New Pornographers. Mas há, na canção, uma operação de mixagem que é exatamente o tipo de detalhe que faz da música do Spoon mais do que uma releitura do classic rock tradicional: em um dos falantes, ouvimos somente bateria e baixo; no outro, guitarra e backing vocals; e no centro, a voz isolada.
Em teoria, não é nada muito diferente das mixagens em estéreo feitas nas décadas de 1960 e 1970 (as primeiras mixagens para estéreo dos Beatles; o disco de estréia do Ramones, etc), mas em vez de distribuir a banda no espaço, como essas gravações faziam, a mixagem de “Trouble Comes Running” destaca justamente a separação entre cada canal, anulando o sentido tradicional do ato de mixar. Com isso, um rockão com vocação de arena é gravado de maneira que nunca poderíamos ouvi-lo ao vivo. Essa revelação do artifício é típica da abordagem barroca que o Spoon faz do rock clássico, pegando algo de sua base, mas transformando radicalmente seu espírito.
12. “Mary” – Lloyd Cole Music in a Foreign Language [Inglaterra; Sanctuary; 2003]
“Mary” é uma canção mais obscura de Lloyd Cole, lançada como faixa bônus na versão japonesa do quase acústico Music in a Foreign Language. É, também, uma das mais bonitas do disco. A bela construção decrescente dos versos leva a um refrão simples, mas não menos belo, em um tipo de desenho que faz lembrar as composições de Paul Westerberg para os últimos discos do Replacements, e seus primeiros álbuns solo.
13. “Don’t Dream It’s Over” – Crowded House Crowded House [Austrália; Capitol, 1986]
De todas as grandes canções da trilha-sonora do ótimo Adventureland, a maior surpresa veio mesmo com “Don’t Dream It’s Over”, sucesso mundial do grupo australiano Crowded House. Isso se dá não só por “Don’t Dream It’s Over” ser excepcional, mas principalmente porque eu talvez nunca a tenha escutado com a atenção devida. Recuperado pelo filme de Greg Mottola, pude ultrapassar todos os cacoetes de produção oitentista que escondem a canção, e descobrir não só uma melodia incrível, mas também uma letra de rara sobriedade.
14. “Don’t Forget About Me” – Arthur Russell Love Is Overtaking Me [EUA; Audika; 2008]
Não é de se estranhar que justamente Love Is Overtaking Me seja o disco de Arthur Russell a cativar definitivamente meus ouvidos conservadores. Afinal, o álbum tem muito pouco do traço vanguardista que marca a maior parte das produções e composições de Arthur Russell, reunindo um grupo de canções que ficam entre o folk e o pop.
“Don’t Forget About Me”, provavelmente a melhor faixa de um álbum quase impecável, é um belíssimo dueto com a vocalista Joyce Bowden, sem grandes desvios experimentais. Ao contrário, é uma canção pop que poderia estar no repertório de diversos artistas mais populares da década de 1980, vestindo igualmente bem o Lloyd Cole com seus Commotions e um Men At Work, por exemplo.
E mesmo em toda sua perfeição pop, uma aproximação mais atenta descobre uma particularidade que é bastante estranha ao cânone do gênero: “Don’t Forget About Me” não tem uma estrutura tradicional de verso + ponte + refrão + outro, mas sim um acúmulo de partes que respondem a uma outra linearidade (todas elas tocadas duas vezes), como se a canção formasse um contínuo não modular, mas em fluxo. Embora o título identifique o refrão mais claro da canção, “Don’t Forget About Me” não parece ser construída para chegar até ele; é mais como se cada parte levasse à seguinte, e a canção se fizesse exatamente na passagem de uma para a outra.
15. “You Must Be Out of Your Mind” – The Magnetic Fields Realism [EUA; Nonesuch; 2009]
Por mais estranho que isso pareça, nunca me vi totalmente fisgado pelo trabalho de Stephin Merritt e seu Magnetic Fields. Embora muito da instrumentação tenha semelhança com a usada no Driving Music (“A Plastic Sea”, em especial), sempre tive resistência à ingenuidade calculada das letras e melodias da banda, próximas demais de canções de Natal ou de jardim de infância para serem realmente tocantes.
Essa resistência não cedeu de fato com Realism, mas foi brevemente suspensa durante sua faixa de abertura. Embora a letra mantenha a abordagem apatetada característica à banda, a melodia do refrão vai a caminhos surpreendentes dentro das mesmas quatro notas de sempre, em amplitude bem maior do que os discos anteriores da banda ousavam explorar. Com isso, “You Must Be Out of Your Mind” consegue ser catchy sem nunca parecer realmente boba, como a maior parte do assoberbado 69 Love Songs permanece até hoje.
16. “Boy About Town” – The Jam Sound Affects [Inglaterra; Universal; 1980]
Enquanto ainda não parei para escutar com calma o novo disco do Paul Weller, fiquemos com a definição de power pop que é “Boy About Town”, uma das melhores canções do Jam.
17. “This Will Be Our Year” – The Zombies Odessey and Oracle [Inglaterra; Repertoire; 1968]
Por meros dois anos, não é possível juntar este Odessey and Oracle a Pet Sounds, dos Beach Boys, e Revolver, dos Beatles, na trinca perfeita de um ano de ouro do pop psicodélico. Mas é justamente neste pequeno atraso que Odessey and Oracle se torna um disco ainda mais notável, pois enquanto os Beatles se degladiavam com o álbum branco, e os Beach Boys se dissolviam no muito subestimado Friends, os Zombies ainda eram capazes de levar adiante a pretensão que as duas bandas já acreditavam ter esgotado: esticar os limites melódicos da canção pop com uma alegria sem igual.
“This Will Be Our Year” é a prova perfeita desse otimismo inverterado, capaz de subir o tom no meio da música sem que isso pareça chantagista ou canastrão. Nos dois minutos de sua duração, uma das mais belas melodias já escritas leva pela mão uma letra que, sem qualquer esforço, encarna o sentimento que as canções pop traduziram com propriedade maior do que qualquer outra forma de arte: a mais cega e inabalável esperança.
18. “14 Cheerleader Coldfront” – Guided By Voices Propeller [EUA; Scat; 1992]
Uma pérola imunda que poderia muito bem ser uma demo perdida dos Beatles, “14 Cheerleader Coldfront” é uma das mais belas canções já escritas pela dupla Robert Pollard/Tobin Sprout – e, pelo que diz a lenda, é a única colaboração real entre os dois. O talento raro e sempre dispersivo de Pollard ganha foco no encontro com Sprout – sujeito de poucas, mas sempre boas canções. É como se John Lennon compusesse em parceria de George Harrison, combinando o melhor de “Nowhere Man” com o melhor de “Here Comes the Sun”.
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