por Fábio Andrade.
Canção escrita por Robert Pollard e Tobin Sprout, originalmente lançada no álbum Tonics & Twisted Chasers e também presente na compilação quádrupla Hardcore UFOs Box Set: Revelations, Epiphanies and Fast Food in the Western Hemisphere.
Por trás de toda a sujeira lo-fi das gravações caseiras do Guided By Voices, há indícios de uma índole pop que sempre me pareceu encapsular uma intenção muito clara de seu projeto artístico: falhar em ser os Beatles. Pois, ao contrário de bandas como Teenage Fanclub, Superdrag ou Pernice Brothers – que buscavam reconstituir com a maior fidelidade possível o pop perfeito dos Beatles e de seus bons contemporâneos – o Guided By Voices, como o Pavement, parte de uma impossibilidade intrínseca em realizar esse projeto ipsis litteris. Emular os Beatles pode render momentos de música extremamente prazerosa, mas igualmente ineficaz, reverente, morta. Robert Pollard e seus compadres reconheciam a inutilidade da mimese pura e simples, mas eram por demais moldados pelo brilhantismo da obra de Lennon, McCartney, Harrison e Ringo para dispensá-la ou negá-la por completo. Restava se entregar nessa jornada ahabiana, se aproximar dela consciente dessa impossibilidade, assumindo o fracasso como condição inalienável.
Para o Pavement, a busca do fracasso estava sobretudo nos arranjos das canções. O que impede “Spit on a Stranger”, “Major Leagues”, “Shady Lane” e “Frontwards” de figurarem o catálogo dos Beatles, para além da visível influência na escritura das canções, não é algo tão superficial quanto a distorção das guitarras – recurso mais presente na obra do Teenage Fanclub e do Superdrag do que em todo o Terror Twilight, por exemplo. A subversão do cânone está justamente no desleixo calculado dos arranjos, em seus riffs de blues impossível, na restrição vocal de Stephen Malkmus e sua dislexia poética. Enquanto “Spit on a Stranger” repete estruturas melódicas de padrão Lennon & McCartney – a ponte, por exemplo, é uma leve variação das de “We Can Work It Out” e “Cry Baby Cry” – há toda uma aparência de improviso desenhada nos arranjos da canção, a começar por sua abertura abrupta, que não cabe nem nos momentos mais excêntricos dos Beatles. Pois mesmo “A Day in the Life” ou “Tomorrow Never Knows” vão a caminhos inesperados com uma precisão inabalável, onde os autores demonstram saber exatamente onde e como cada trecho da canção deve se perder.
No Guided By Voices, porém, o fracasso é de outra natureza. Por um lado, há o obstáculo primeiro da qualidade das gravações – em sua maior e melhor parte, realizadas em gravadores cassetes caseiros, incorporando suas limitações como recurso artístico de grande expressão. Mas, mais do que isso, a deformação estilística no vinha justamente de uma estratégia imediata de composição. Enquanto os Beatles burilavam a materialidade de suas canções ao ponto de fazê-las imperceptíveis, quiçá espontâneas, Robert Pollard vem de uma geração posterior que já assume esse trabalho de craft pelo seu resultado. Para artistas como Pollard, a estrutura das canções dos Beatles – naquele momento, tão antigas quanto o mundo – já são, de fato, uma construção espontânea, intuitiva e descomplicada. É, portanto, necessário registrá-las em sua própria gênese – como o voice over nos documentários de Alain Cavalier, gravado na câmera durante o próprio desenrolar da cena, sem chances de refazer, de aperfeiçoar, de adequar a sintonia entre texto e imagem a tal ponto de perfeição que toda a vida se esvai. Essa impressão é suficientemente perceptível nas gravações do Guided By Voices pré-Mag Earwhig!, mas um testemunho ocular pode ser lido no blog de James Greer, baixista da banda em parte de seus melhores anos.
“Key Losers” é uma das obras-primas menos conhecidas do quarteto de Ohio. O álbum que apresenta ela ao mundo, Tonics & Twisted Chasers, é uma coletânea de b-sides (há a-sides do Guided By Voices?) e sobras originalmente lançado exclusivamente para membros do fã-clube oficial da banda, e posteriormente reeditado comercialmente, com cinco faixas bônus, pelo minúsculo selo local Rockathon Records. Sétima faixa do disco, ela aparece espremida entre uma série de rascunhos incompletos, gravações dispensáveis e uma ou outra jóia perdida (“Is She Ever” e “Optional Bases Opposed”, por exemplo). Gravada apenas com violão e voz, “Key Losers” se torna exemplar de como esse auto-boicote funcionava na construção instantânea das canções da banda. Em primeiro lugar, há uma base de violão extremamente simples, feita memorável pela simples passagem por um bemol (em relação ao tom da canção) ao fim do primeiro e do terceiro acordes da frase. Em seu primeiro minuto, tudo se desenrola com extrema simplicidade: verso de belíssima melodia vocal; uma ponte que cumpre bem sua função; e um dos refrões mais bonitos e marcantes de toda a carreira da banda. O refrão – que usa a mesma sequência de acordes do verso de “Let It Be” e de tantas outras grandes canções pop – repete uma única frase, harmonizada em várias vozes que destacam o “they will let you down everytime”.
Ao fim do refrão, “Key Losers” já está toda escrita. Voltamos ao riff inicial, e todos os acordes serão repetidos sistematicamente, em jogo bastante simples de espelhamento onde, ao se chegar ao final da canção, basta voltar ao começo e repeti-la por inteiro. Mas embora a base permaneça rigorosamente a mesma, toda a melodia vocal parece se perder. Enquanto canções como “Hello Goodbye” conquistam permanência justamente na repetição de padrões melódicos, “Key Losers” faz exatamente o contrário. É como se, ao chegar novamente ao começo, Robert Pollard já não mais se lembrasse de como cantou toda a canção, e tivesse que reescrevê-la on the go. Embora a transformação da letra (que, no encarte de Tonics & Twisted Chasers, é interrompida antes da segunda ponte) pudesse justificar a mudança melódica, o refrão de “Key Losers” repetirá a mesma frase da primeira vez, com uma entonação completamente diferente. Onde antes tínhamos uma linha descendente, passamos a ter uma melodia ascendente – trocando a ênfase do “they”, no primeiro refrão, para o “down”, no segundo.
Essa recusa categórica à repetição é extraordinária justamente por se dar em uma composição de vocação pop incontornável. É possível retomar os Beatles, mas o seu posicionamento em relação à arte e seus procedimentos já não é mais o mesmo. O que antes era desejo de auto-apagamento (a canção que parece escrever a si mesma, cujas partes inevitavelmente puxam as mesmas armações, e as pontes puxam o mesmo refrão) agora precisa apagar sua inevitabilidade, pois suas estratégias de construção se tornaram vulgares. Esse desejo de releitura histórica encontra paralelo no Inimigos Públicos de Michael Mann – filme que encontra enquadramentos perfeitos e ideais, mas que os abandona sistematicamente no desenquadramento da câmera no ombro, como se a fixidez fosse um demonstrativo imperdoável de vaidade. Em “Key Losers”, Robert Pollard encontra a canção perfeita, mas precisa perdê-la antes que ela se faça fixável, previsível, antecipável. Na desigualdade simétrica de seus dois minutos e meio, escreve um equivalente musical para o conceito de epifania.



Nah. O resultado final pode ter sido o que você disse, mas acho que você supõe muito mais intenção por parte do robert do que realmente existe. Talvez você esteja certo com relação à essa música especificamente mas duvido que isso se aplique ao resto das músicas dele. Até porque se ele tivesse esse tipo de cuidado não criaria cem músicas por ano como era o costume dele.
Em entrevistas ele diz que fica gravando enquanto improvisa qualquer coisa no violão depois escuta a gravação e separa trechos pra trabalhar em cima às vezes juntando com outros trechos, etc. Isso é bem óbvio quando você compara a versão de estúdio de “Secret Star” com a versão demo no site dele.
“Over The Neptune/Mesh Gear Fox” é outra que mostra como ele constrói as músicas, vários trechos dessa música são permutados com outros trechos pra criar outras músicas.
Thiago, eu não estou supondo intenção alguma, porque isso não dá pra gente saber mesmo e eu acho que nem importa. O que eu estou dizendo é que há, nas estruturas de várias canções do GBV, ocorrências como essa, e a partir desse resultado eu faço uma leitura. O que provoca esse resultado pode ou não ser intencional, mas isso é o que menos importa.O Robert Pollard é um sujeito famoso por dizer que compõe cinco músicas cada vez que vai ao banheiro, e duas delas são boas. Isso, na verdadem corrobora com o que eu digo, e não o contrário. É um processo que ele já tem como espontâneo, como orgânico, e que está sujeito a se perder e se reencontrar ao longo dos anos (como você diz de “Over The Neptune/ Mesh Gear Fox”). Isso muda muito, em resultado, quando ele começa a gravar em estúdio mesmo e começam a existir versões “demos” pras músicas (antes as “demos” eram os discos). Não estou dizendo que ele intencionalmente responde às canções dos Beatles quando compõe, mas que isso acontece em um processo natural e histórico. Mas quem ouve “14 Cheerleader Coldfront” e não percebe o quanto há de Beatles ali tem que ser meio surdo.