por Fábio Andrade.
Arnaldo Antunes – \”O Seu Olhar\”
Canção escrita por Arnaldo Antunes e Paulo Tatit, presente no álbum Ninguém.
Arnaldo Antunes não facilita a vida de seus defensores. De cara, há todos os momentos de franco embaraço em sua filiação passada aos Titãs – grupo que leva tão a sério seu projeto de auto-paródia involuntária que consegue transformar toda demonstração de talento (e sim, elas existem) em munição para seu próprio fuzilamento (exemplo recente: transformar a beleza understated de “Epitáfio” – que esteve lá antes de ser aniquilada publicamente nas rádios e televisões – na aberrante continuação que é “Enquanto Houver Sol”). Sua trajetória posterior é de baixos igualmente gritantes: de poeta pop do Fantástico e das cabeceiras de todos os Serginhos Groissman do mundo a integrante do estrume coletivo que foi o Tribalistas, Arnaldo Antunes é um caso particular de artista capaz de produzir belas obras e, no momento seguinte, chafurdar vigorosamente na merda, por vezes dando a impressão de não saber distinguir uma coisa da outra.
Mas há os discos, as canções, os versos que tornam todo esse atrapalhado projeto artístico algo mais desconcertante e rico. Em seu melhor álbum – Ninguém, de 1995 – há momentos de assombrosa precisão, onde letra e melodia alcançam uma simbiose rara e seu repertório de imagens revela uma complexidade inimaginável para um sujeito tão afeito a excrescências. A química entre a estranheza melódica das composições de Arnaldo, as guitarras angulares de um inspiradíssimo Edgard Scandurra, e a sonoridade imprevisível da percussão de Peter Price – que trabalhava com lixo e outros materiais incomuns bem antes dos diluidores transformarem isso em figurino obrigatório da ONG da chacota – é tão particular que nem mesmo a limpeza médio-aguda da produção de Liminha consegue estragar (lembremos da excelente “Alegria” e das interessantes versões para “Lugar Comum”, de Gilberto Gil e João Donato, e “Judiaria”, de Lupcínio Rodrigues). Ninguém não é exatamente um disco equilibrado; há composições melhores e piores, versões mais e menos felizes. Mas, em todo seu desequilíbrio, há um disco de atmosfera inquebrantável, cuja propensão à imersão faz 90% dos discos que vieram com objetivos parecidos depois dele parecerem mais velhos.
“O Seu Olhar”, sexta faixa do disco, é a mais forte de toda a carreira de Arnaldo Antunes e a que melhor apresenta uma simbiose sem farpas entre letra e música, entre conceito e execução. Canção sem refrão ou ponte, “O Seu Olhar” se aproxima do minimalismo das construções circulares à época bem menos populares do que hoje (Animal Collective, Dan Deacon, Fleet Foxes, etc), onde uma única parte é repetida e variada ao longo de toda a canção. Essa economia constitutiva é brilhantemente repassada para os arranjos: violão, baixo e bateria programada criam a base constante circular (equivalente musical dessa estrofe única) que é pontuada por leves ataques de percussão (as variações) e sons em reverse (teclados e cordas) que acentuam a ida-e-volta do avanço em círculos. Esse aparente formato em loop é desmontado pela sensação de que ele volta sempre um pouco diferente – como a supressão de trechos da letra ao final deixa claro. Há um processo concomitante de afirmação e desgaste intrínseco ao movimento circular, onde a trajetória não se faz propriamente infinita (pensemos em toda a anulação do tempo proposta pela videoarte) pois cada volta tem um custo ao corpo da obra, que vai despendendo pedaços até chegar ao fim – no caso, de uma abrupção que reforça esse tempo como algo inevitavelmente linear (logo, contrário ao falseamento do infinito na videoarte).
Mas o maior acerto vetorial da canção, o recurso que aponta todas as setas da para uma única e claríssima direção, é justamente na tradução de seu conteúdo lírico para os arranjos. Pois “O Seu Olhar” é sobre o encontro de duas sensibilidades, de duas oposições (e aí há, novamente, um paralelo possível na convivência do loop com a linearidade) que se complementam sem nunca se anularem: o seu olhar melhora o meu. O toque de mestre é justamente converter isso em conceito musical: um dueto. A voz hiper grave de Arnaldo Antunes é somada ao agudo de Zaba Moreau, ambos soando extremamente frágeis (algo que seria prontamente anulado em uma parceria com Marisa Monte, como se dá na belíssima “Alta Noite”), desconfortáveis em registros tão extremos que parecem prestes a colocar toda a canção a perder. Essa soma de dois desconfortos gera uma terceira voz inaudita, algo imaginável entre o grave e o agudo absolutos que, mesmo fisicamente inexistente, é sugerido pelo contrates dos extremos. Essa “voz do meio” é justamente o conceito abstrato, o equilíbrio “melhor” (e impossível) que está entre os dois indivíduos e que é sugerido pelo seu encontro.
Toda essa abstração é feita concreta pelas imagens evocadas em uma das mais certeiras poesias de Arnaldo, repleta de inversões desestabilizantes que destacam o caráter colaborativo dessa relação que vai e vem: “o seu olhar demora / o seu olhar no meu” é contraposto, mais à frente, a “o seu olhar me olha / o seu olhar é seu”. Para o encontro ser efetivo é preciso destacar a autonomia das duas partes e por vezes inverter completamente o jogo – movimento exemplar no brilhante verso “onde a brasa mora / e devora o breu”, que é, ao mesmo tempo, poeticamente surpreendente (pois o previsível seria o contrário – o breu que devora a brasa) e cientificamente correto. Essa autonomia das partes faz de “O Seu Olhar” uma espécie de jogo de montar, no qual os módulos podem ser recombinados aleatoriamente, produzindo novos sentidos a cada novo encontro, em um raro momento onde as influências concretistas do trabalho de Arnaldo Antunes alcançam uma organicidade plena e naturalista, na contradição em termos que aplica a racionalidade em extremos de frieza que se apagam e se invisibilizam.

