por Mario Cascardo.
Canção escrita por Anne Laplantine, presente no álbum Nordheim.
Há certa fragilidade em Anne Laplantine. Seus discos Nordheim e Hamburg, por exemplo (e englobando todos, o site), deixam manifesta a possibilidade do som – ainda – inominável, da música como trecho significante dentro de um todo apenas mais significante. Está tudo entre facilitar e dificultar os significados e a audição, afiliar-se a Judee Sill e à musica concreta e também reconhecer um pai mais austero em J. S. Bach.
Austeros e visuais, compositores da partitura, de músicas feitas e apreensíveis em abstrações imagéticas que podem beirar o geométrico, o raciocínio em um plano pouco envolvente. Ouvir as músicas e discos de Laplantine pode ser uma experiência intrigante e agradavelmente difícil. Ou dificilmente agradável: de cortes visíveis. As composições observam a si mesmas (quando repetem e sublinham seus padrões) e dificultam a colocação do ouvinte em seu interior – a questão cinematográfica que Ismail Xavier escreveu sobre a “opacidade” e a “transparência” da imagem. Chega-se a essa dualidade na convidativa “Pour”.
Como outras de Norheim, a repetição do fraseado sublinha o quê programático do seu estilo. Aqui bem discreta e suavemente, ao contrário das outras faixas, a emissão de cada nota parece colaborar para um projeto assumidamente decomposto: em uma trilha elas vibram, e na outra vão arqueadas como se lançadas do chão (base) ao céu (altura), para pousar num canto indeterminável (o Indeterminável). In-destinação bem aproveitada em um video não oficial:
Em outras palavras, a linha melódica vibrante e agradavelmente descendente ocupa a primeira trilha, de onde afere-se a vocação/vontade de Laplantine à imersão musical mais fácil. Na outra, sons etéreos e isolados, por mais que em consonância com a melodia e o tom, tendem a uma autonomia que se confirma ao final. A 2:27, uma grande parábola atônica e muito mais alta em volume confirma a intenção programadora e conflituosa de Anne: poder ter como matriz um material de “sobra” de onde se parte para a construção harmônica. Nota(ção) infelizmente limada do video.
E aqui (talvez ainda, pois no disco Hamburg, de 2003, ela já parece permitir audições mais fluidas), haja essa vontade mais declarada de confrontar a programação com o analógico (o referente real?) e desprender-se dos padrões iniciados. Em álbuns posteriores, a sucessão de “field recordings” (o registro mais concreto da música concreta?) a canções mais redondas levam a dualidade pra outro patamar… A questão/busca da palpabilidade na música – certa força constante, motriz, em Anne Laplantine.

